e vai indo
As coisas iam indo. Tava sem idéia de que rumo tomar. Tava com uma idéia fixa. Tinha que passar a andar com um caderninho e ir anotando tudo de interessante que ia vendo. Situações do metrô, como a do cara que fingia ou que realmente recebia santo, era sempre na mesma hora. Ou então a situação da mendiga que fica balançando na Cinelândia para a frente e para trás, em movimentos ritmados. Coisas de uma cidade grande que pouca gente consegue ainda se chocar com elas. Mas que se observadas por alguns instantes, são realmente bizarras.
Aliás, muitas vezes tinha pensamentos cínicos, irônicos. Desses que se você conta numa mesa de bar vai deixar chocado os puritanos e fazer graça com os sádicos. Quando parava num sinal, e via os moleques surgirem com os limões na mão pra tentar ganhar um trocado, inevitavelmente pensava: "porra, se eles realmente estão com fome porque não chupam essas porras ao invés de ficar rodando e jogando eles pro alto." Isso nunca falou pra ninguém. Os pensamentos ficavam reprimidos. Alguns soltava em rodas. Gostava de chocar. Não tinha muitos pudores com a língua afiada. Tinha a teoria de que se deve desconfiar de quem fala demais, normalmente são malas sem alça. Amigos de apenas algumas horas. Mas que isso, não rola.
Enfim, tava voltando pra casa e tinha que fazer alguma coisa pra comer. Estava com uma certa fome. Tinha chegado da Rave no domingo e já era noite de segunda. Lembrou que tava mesmo com fome.


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