Wednesday, October 26, 2005

mãos a obra

Na geladeira tinha pouca coisa. Morava com duas amigas, o apartamento era de três quartos, e ficava em Ipanema. Normalmente quem fazia as compras de verdade eram elas, por conta dele ficavam apenas as bebidas que normalmente eram consumidas na casa: cerveja, vinho, vodka, e saquê. Como elas dormiam desde de que haviam chegado da rave no domingo, e não tinham comprado nada, a geladeira gritava de tão vazia. Apenas alguns ovos, e queijo e mais nada. Pra sua salvação tinha ainda uma garrafa com um pouco de Coca-Cola, sem gás, é claro. Mas foi isso mesmo. Ovo frito, com queijo, e Coca sem gás. Comeu vendo tv, algum programa de esportes que mostrava os gols do final de semana. Às vezes dava essas sortes.
Começou a pensar sobre a performance das meninas na última festa. Performance. Só essa palavra pode resumir o que elas faziam quando iam para "night". Até perucas elas colocavam. Eram gatinhas até, mas o que elas gostavam mesmo era de chamar atenção. Sempre dizia isso para elas. E sempre brigavam porque ele dizia isso. As duas já tinham tido casinhos com ele. Hoje eram só amigos, às vezes até se consolavam na tristeza. Mas eram amigos. Na verdade gostavam de saber que tinham uns aos outros. Débora era morena e Joane também. Mas Joane pintava o cabelo. A cor da vez era azul. Ela era mesmo muito maluquinha. Mas era dela de que ele mais gostava. Paixão até. Mas não admitia. Mas como viviam às turras quase todos percebiam e Deeb, como chamavam Débora tinha ciúmes. Ou seja, eram complicados, e gostavam de ser assim. Resolveu acender um baseado perto da janela. Pegou um incenso, a seda e o bagulho. Enquanto ia apertando se desligou do mundo. Voltou a pensar quando ouviu os primeiros estalos da erva queimando. As cenas da rave começaram a surgir na mente. Lembrou da entrada da festa: eles tinham ficado mais de uma hora bebendo na porta e encontraram com os mais variados tipos de pessoas. A festa era fora do Rio e isso tornava as coisas mais interessantes. Conhecer pessoas novas ia renovar o fôlego. Foi fumando e pensando....a tv continua pipocando as imagens....

Tuesday, October 25, 2005

vaga lembrança

Além de lembrar de estar sentindo alguma fome, lembrou que tinha faltado ao trabalho. No dia seguinte pela manhã antes de chegar ao centro do Rio, teria que pensar em alguma desculpa para falar com a chefe. Apesar de achar que ela estava cagando se ele tinha ido ou não no dia anterior, sabia que tinha que dizer alguma coisa. O chefão mesmo estava viajando, e sua chefe se fazia nessas datas, acessando o dia inteiro sites pornográficos, tomando café compulsivamente, e fumando dentro da sala. Coisas que quando o chefão estava lá não podia fazer, à excessão da compulsão pela cafeína. Ficou pensando no que comer, era mais relevante para o momento.

Monday, October 24, 2005

e vai indo

As coisas iam indo. Tava sem idéia de que rumo tomar. Tava com uma idéia fixa. Tinha que passar a andar com um caderninho e ir anotando tudo de interessante que ia vendo. Situações do metrô, como a do cara que fingia ou que realmente recebia santo, era sempre na mesma hora. Ou então a situação da mendiga que fica balançando na Cinelândia para a frente e para trás, em movimentos ritmados. Coisas de uma cidade grande que pouca gente consegue ainda se chocar com elas. Mas que se observadas por alguns instantes, são realmente bizarras.
Aliás, muitas vezes tinha pensamentos cínicos, irônicos. Desses que se você conta numa mesa de bar vai deixar chocado os puritanos e fazer graça com os sádicos. Quando parava num sinal, e via os moleques surgirem com os limões na mão pra tentar ganhar um trocado, inevitavelmente pensava: "porra, se eles realmente estão com fome porque não chupam essas porras ao invés de ficar rodando e jogando eles pro alto." Isso nunca falou pra ninguém. Os pensamentos ficavam reprimidos. Alguns soltava em rodas. Gostava de chocar. Não tinha muitos pudores com a língua afiada. Tinha a teoria de que se deve desconfiar de quem fala demais, normalmente são malas sem alça. Amigos de apenas algumas horas. Mas que isso, não rola.
Enfim, tava voltando pra casa e tinha que fazer alguma coisa pra comer. Estava com uma certa fome. Tinha chegado da Rave no domingo e já era noite de segunda. Lembrou que tava mesmo com fome.

O começo

O cara acorda e nem quer se levantar. Olha ao lado e só vê o mesmo de sempre. Passa a mão pelo corpo só para ver se ainda existe. Existe. Isso já é bom. Não lembra de nada. Sente sono. Vira para a parede. Vê a hora. Nem é tão tarde. Dorme de novo. Acorda depois. Olha o jornal. É o mesmo de ontem. Senta no sofá. As paredes são opressoras. Precisa de sol. Mas está de noite. Sai pra dar uma volta. Quando se liga, percebe que já está andando por mais de dois quilômetros. Sente sede. Senta no quiosque na beira da praia. Fica olhando o morro Dois Irmãos. Pede um coco. Tá geladão. Vai pagar, mete a mão no bolso. Esquece que tinha trocado de calça e saído sem um tostão. O cara nem tá olhando. Saí correndo alucinadamente. O dono do quiosque nem liga, grita "filha da puta", acende um cigarro e volta a ver o jogo que passa na TV.
Ele continua correndo. Na cabeça dele, o cara ainda estava atrás. Nem se dá conta que corre por nada. Continua achando que o cara tá atrás dele por causa da porra da água de coco. Tá dando uma de otário e nem se liga. Sempre assim. Da outra vez contou pra menina com quem tava saindo que tinha pego outra só porque achou que ela já sabia. No fim das contas ela nem sabia, ficou sabendo por ele. Chamou ele de mané e ainda disse que ele era ruim de cama. Ficou puto da vida. Tinha certeza que era garanhão. Mas não teve jeito, ficou com a dúvida na cabeça. Ainda hoje pensa nisso quando se distrai....